Pôr a mesa
Preparar a janta sem fome. Todos os dias ela o faz. Todos os dias, o mesmo projeto. Ela planeja, vai ao mercado, escolhe, separa, consulta, vê o preço, traz para casa. Ela separa, descasca, pica, fatia. Ela lava, ela frita, cozinha, assa, bate, mistura, tempera, coloca no prato de servir. Todos os dias ela o faz, mesmo sem ter fome, prepara a janta. Ela prepara o alimento na mesma hora, todos os dias, e ela serve a janta na mesma hora, todos os dias. Ela nunca pergunta se, naquela hora, ela estará com fome. E, na maioria das vezes, não está. Mas sabe que a fome virá e por isso se organiza.
Ela prepara muitos tipos de pratos diferentes, mas nem todos agradam a ela. Alimentos que ela não gosta, muitas vezes. E por isso se organiza. Por isso ela prepara, todos os dias, mesmo sem fome, o alimento, a janta. Não só para ela, mas para todos que estão com ela. Coisas diferentes. Ela sabe. Ela pensa nisso. Ela sempre planeja isso. Organiza.
Põe a mesa: a toalha, os pratos, talheres, copos, guardanapos. Ela sempre pensa em tudo, mesmo sem sentir fome.
Ela sabe que mais cedo ou mais tarde, a fome virá — ela pensa. Então, mesmo que ela ainda não sinta fome, ela prepara tudo. Prepara tudo certo. Certa de que, mais cedo ou mais tarde, a fome virá. E, se não vier para ela, virá para eles, virá para alguém.
Então ela tem um hábito. Ela tem uma rotina extremamente igual. Todos os dias, ela prepara mesmo sem fome a janta. E, nesse preparar a janta, todos os dias, naquele mesmo ritual, ela coloca toda a sua esperança, tempera com fé. Ela deposita toda a confiança que ela tem na vida, nos outros e nela mesma. E o simples ato de, todos os dias, repetir a mesma ação, pensar num prato, preparar, muitas vezes sem fome — resilientemente todos os dias ela o faz. O faz por amor, por ternura, o faz por rotina, o faz por que tem de fazer, mas muito mais que isso o faz mesmo sem fome não somente para ela mas para todos que ali estão - e todos se beneficiam.
Ela prepara tudo, pensa, idealiza, sai às compras, escolhe, trás para casa, descasca, fatia corta, moe, pica, frita, cozinha, assa, tempera, mistura, bota mesa com guardanapo todos os dias e ao final ela senta à mesa.
Ela sabe que a fome virá, mais cedo ou mais tarde.
Então, depois que está tudo preparado, ela se senta.
E, no ato de sentar mesmo, a fome, pouco a pouco, aparece.
Então ela agradece, todos os dias, pela rotina que a levou até aquele momento: cozinhar sem fome, cheia de confiança na vida.

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